Child doing homework. Sad girl writing, reeding

Retrato Midiático dos adolescentes no Brasil

A edição de fevereiro de uma das revistas de maior circulação no Brasil trouxe como capa e manchete principal uma tese sobre os adolescentes, baseada em pesquisas e enquetes: “Eles é quem mandam – Um retrato dos adolescentes de hoje: eles são os reis da era digital, decidem o que a família vai comprar, custam caríssimo, mas estão mais desorientados do que nunca”. Logo no princípio da matéria já é apresentada a relação desse retrato com um diagnóstico da sociedade atual assim explicitado: “Ganhou-se em liberdade e pragmatismo; perdeu-se em encantamento e idealismo”. A partir desse pano de fundo, se descrevem as características dos jovens de hoje, recolhidas em entrevistas a eles mesmos e a pais, psicólogos e educadores.

Os jovens de hoje não são revolucionários, mas conservadores, e almejam ganhar dinheiro com o trabalho. Realizam várias atividades ao mesmo tempo, estão mais bem informados, mas suas opiniões são mais volúveis. Vivem em rede, por isso não se dividem tão rigidamente em tribos e são menos preconceituosos. A liberdade de escolha implica em uma sucessão de troca de amores, amizades e aspirações, sendo mais difícil tomar decisões. Nascidos na era digital, são quem dominam os novos gadgets lançados e por isso custam mais caro. A mesma vida em rede da era digital os leva a um excesso de exposição, em sites de relacionamento como o conhecido Orkut. Também se aponta a facilidade dos adolescentes no acesso a álcool e outras drogas.

Para além de comentários e relativizações que seriam possíveis a partir deste diagnóstico generalista, característico da mídia de massa – o que é alertado pela própria jornalista no início da matéria –, farei um breve comentário sobre a parte final da reportagem, dirigida diretamente aos pais de adolescentes, cuja maior culpa, segundo a revista, é não saber dizer não. O resultado final é praticamente um manual do uso da palavra com o filho adolescente, assim resumido:

Quando o jovem bebe, deve-se explicar franca e amigavelmente o risco do consumo excessivo do álcool; quando ele insiste em não atender o celular, deve-se tirar a liberdade que lhe foi concedida; quando ele abusa do telefone, deve-se lhe dar um celular pré-pago; quando o adolescente se expõe demais na internet, deve-se mostrar o que se pensa a respeito ou consultar um psicólogo; quando há excesso de discussão entre pais e filhos, deve-se limitar o bate-boca, deixando o filho falando sozinho até que a situação se acalme ou então mandar um e-mail.

Este manual pode causar risadas para alguns ou servir de conselheiro para outros leitores da revista, mas o que chama mais atenção é a ilusão, no sentido mais ingênuo da palavra, de que o “bom conselho” aos pais resolveria os problemas. Dizer aos pais de adolescentes o que eles têm que fazer não escamoteia o desencantamento e a falta de idealismo que descrevem acima a sociedade atual, onde as autoridades não têm um lugar preservado de antemão do qual podem fazer uso ao dizer o “velho, bom e sonoro não” que sugere a revista. Não adianta exigir dos pais que resgatem uma posição de autoridade em relação a seus filhos quando não lhes fica claro o que seria sua função de pai ou de mãe. Segundo a reportagem, os jovens de hoje sofrem de desorientação. Mas não é isso também que leva muitos pais perdidos a buscarem a solução através dos “especialistas”, como os psicólogos indicados pela própria revista?

Em época de desorientação generalizada, no sentido de uma orientação de autoridade que diga o que se deve ou o que não se pode, a psicanálise se serve a um uso diferente desse discurso do mestre universalizante que, na pior das hipóteses torna-se arbitrário ou totalitário ou, na melhor, é inoperante. Orientada pela particularidade do sintoma, isto é, pela solução que cada sujeito particular encontrou para lidar com os impasses do encontro com o outro e com o mundo da linguagem, a psicanálise pode evitar assustar-se com a decadência do modelo de autoridade clássico e deixar de tentar resgatá-lo, para buscar soluções singulares e internas ao mal-estar característico da época. Baseada no impossível da educação ou comunicação sem falhas, se distancia das verdades científicas sobre “os adolescentes” e permite que se criem espaços de criação singulares, a partir das perguntas formuladas pelos sujeitos de fato, e não das soluções prêtes-a-porter dos manuais. Aos pais, é possível acolhê-los em seu mal-estar e escutar o que trazem de coordenadas a partir da história familiar. Quanto aos adolescentes, pode-se acompanhá-los, tornar-se seu parceiro nessa construção de uma relação possível entre o que ele foi e é para os pais, o que é esperado dele e, por outro lado, o caminho que pode seguir de acordo com seu desejo como sujeito.